Uso cresce entre as seguradoras que operam no país, mas segue focado em tarefas operacionais; entenda o que muda para o cliente
A adoção de inteligência artificial no setor de seguros brasileiro já alcança um patamar elevado, mas ainda caminha em um estágio anterior ao observado nos Estados Unidos, onde o mercado está mais avançado.
Cerca de 80% das empresas no Brasil já implementaram IA, percentual próximo aos 84% registrados no mercado americano, segundo levantamento recente da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras). Apesar da semelhança na taxa de adoção, as diferenças aparecem na profundidade do uso e nos impactos gerados.
No Brasil, predominam modelos híbridos (77%), com aplicações concentradas em áreas de back-office, como operações de sinistros (quando ocorre o risco previsto no contrato de seguro), atendimento ao cliente e análise de documentos.
Nos EUA, além de modelos híbridos (46%), há maior presença de soluções prontas, e o uso da tecnologia já avança sobre frentes mais estratégicas, como gestão de risco, detecção de fraudes e análise preditiva.
Os efeitos também variam. Entre seguradoras brasileiras, 77% relatam impactos incrementais, com ganhos de até 1% de receita. Já nos Estados Unidos, 56% apontam ganhos incrementais, mas 37% já registram impactos substanciais.
Para Nuno Vieira, líder de consultoria em seguros da consultoria EY Latam South, a diferença está menos na adoção e mais no ritmo de evolução.
“A principal diferença entre os dois países não é a adoção da IA, mas o ritmo de desenvolvimento. Os Estados Unidos, pelo seu ecossistema e capacidade de investimento, estão mais à frente”, afirma.
Segundo Vieira, o mercado americano opera em um ciclo mais avançado, no qual a ampliação de casos de uso gera ganhos, que por sua vez justificam novos investimentos. No Brasil, esse ciclo ainda está em consolidação, o que ajuda a explicar por que os impactos permanecem mais limitados.
Quais entraves ainda limitam avanço?
As barreiras, por outro lado, são semelhantes nos dois países. Integração com sistemas legados, qualidade de dados e escassez de profissionais especializados aparecem como os principais entraves, aponta Vieira.
Apesar disso, o Brasil se mostra mais otimista em relação ao futuro: 68% das empresas esperam atingir automação total em parte dos processos nos próximos cinco anos. Ainda assim, os investimentos previstos são mais modestos. A maioria pretende destinar até 1% da receita à IA, mostra o estudo da CNseg.
Nos Estados Unidos, o cenário é inverso: menor otimismo em relação à automação (27%), mas maior disposição de investimento, com aportes entre 11% e 15% do orçamento.
Como seguradoras no Brasil aplicam IA na prática
Na prática, o avanço da IA no Brasil já pode ser observado nas operações das seguradoras.
Na Mapfre, por exemplo, a tecnologia está disseminada em diferentes etapas do negócio, com destaque para atendimento e sinistros. A companhia já utiliza agentes de IA generativa em jornadas de assistência ao cliente e sinistro automotivo, com atendimento via WhatsApp que aceita áudio, texto e imagens e funciona 24 horas por dia.
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“A combinação de automação inteligente, dados estruturados e decisão assistida tem acelerado processos críticos e elevado o padrão de serviço”, conta Patricia Rossi, diretora do Centro de Serviços Compartilhados, Processos e Automação da Mapfre.
Segundo Rossi, os ganhos são mensuráveis em tempo, volume e experiência. A abertura de sinistros se tornou mais rápida, a empresa consegue absorver picos de demanda sem ampliar a estrutura na mesma proporção e os índices de satisfação já superam 90% nas jornadas digitais. Com isso, o cliente é beneficiado com “jornadas mais simples, rápidas e previsíveis”, diz.
Na Porto Seguro, a IA já faz parte do núcleo do negócio há mais tempo, especialmente em modelos de precificação e avaliação de risco. Mais recentemente, a tecnologia tem avançado também na experiência do cliente. Um exemplo é o uso de análise de imagens para automatizar a regulação de sinistros de automóveis.
“Hoje, o cliente pode enviar fotos pelo aplicativo e receber um primeiro orçamento de forma muito mais rápida e automática”, comenta Marcos Sirelli, vice-presidente de Tecnologia, Dados e Atendimento da Porto.
O uso da IA também tem impacto na prevenção de fraudes e na eficiência operacional. Ele conta que a tecnologia ajuda a detectar fraudes com mais agilidade, já que permite identificar inconsistências em imagens e relatos.
Segundo Sirelli, esse ganho operacional tende a se refletir na competitividade das seguradoras, contribuindo para reduzir custos e, consequentemente, impactando o preço final ao cliente.
Já no Grupo MAG, a estratégia passa por integrar a IA a diferentes etapas do negócio, da contratação à distribuição. Por meio do programa MAGia, a empresa utiliza modelos analíticos para personalizar ofertas e automatizar processos operacionais.
“De forma geral, os ganhos se concentram em três frentes: aumento de produtividade entre os times e corretores; maior eficiência operacional, com redução de tempo e custos; e melhoria na conversão comercial”, detalha Luís Fontes, diretor de Tecnologia da Informação do grupo.
Um dos destaques é a plataforma MAG Phygital, que utiliza IA para captação e qualificação de clientes e já superou R$ 5 milhões em arrecadação em 2025, com crescimento de 61% em relação ao ano anterior. A companhia também aplica modelos preditivos na área jurídica, com cerca de 72% de acurácia na avaliação de êxito em ações.
Para Fontes, o mercado brasileiro vive uma fase de transição entre a adoção ampla e a captura de valor em escala. “Nos Estados Unidos, a IA já está mais integrada aos processos centrais do negócio, enquanto no Brasil ainda há maior concentração em atendimento, operações e tecnologia”, compara.
Mesmo com essas diferenças, especialistas e executivos concordam que o país segue a mesma trajetória dos mercados mais avançados, ainda que alguns passos atrás.
Fuente: Infomoney
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