Não é raro que em momentos de crise mesmo as empresas não afetadas diretamente pela situação sofram com um efeito colateral: a inadimplência de outras empresas que compram seus produtos ou contratam seus serviços. No Brasil dos últimos anos, com juros em dois dígitos e ruidosos casos de recuperação judicial e insolvência, a exposição maior desses riscos tem dado impulso ao seguro de crédito. Trata-se de uma modalidade de seguro que cobre o não pagamento de recebíveis das empresas seguradas, risco que se agrava em cenários de crise.
A ideia é simples. Tome-se o exemplo de uma indústria que tenha uma carteira de compradores para os quais ela vende a prazo. Mesmo que esse relacionamento já tenha um bom histórico de crédito, sempre existe a possibilidade de o cliente não honrar pagamentos. Para evitar que uma situação desse tipo prejudique o fluxo de caixa da indústria ou a obrigue a eliminar da sua carteira de clientes esse parceiro de negócios, a empresa pode optar pela contratação de um seguro de crédito.
“O seguro de crédito permite ao fornecedor vender a prazo com mais segurança, já que em caso de não pagamento a seguradora indeniza o segurado. Isso minimiza o impacto financeiro e garante maior previsibilidade ao fluxo de caixa”, explica Tales Leão, diretor de riscos políticos e de crédito da seguradora Chubb. Segundo ele, todas as empresas que vendem produtos e serviços a prazo para outras pessoas jurídicas podem contratar o seguro de crédito, independentemente do porte ou segmento. “Esse seguro é especialmente indicado para empresas que buscam proteção contra inadimplência, desejam expandir suas operações, conquistar novos mercados ou melhorar o acesso a financiamentos”, destaca.
O diretor comercial da Allianz Trade no Brasil, Luciano Mendonça, ressalta as vantagens para além da cobertura da falta de pagamento, como a maior segurança para diversificação de mercados. “Como a seguradora tem diversos contratos de seguro de crédito em vigor, ela acaba tendo acesso a uma grande quantidade de informações sobre as empresas. Isso lhe permite sinalizar ao seu segurado o grau de risco a que vai ficar exposto se vender a prazo para um novo comprador, seja no Brasil ou no exterior”, explica. Esse benefício do seguro de crédito pode ser particularmente interessante em circunstâncias como a da guerra no Oriente Médio, situação que pode obrigar muitas empresas a buscar outros mercados para substituição daqueles impedidos de comprar por causa do conflito. Outro ponto positivo, diz Mendonça, é que a proteção pode ajudar a empresa segurada a obter condições mais favoráveis na hora de procurar financiamento — o seguro tende a melhorar o rating da empresa.
“Uma grande vantagem do seguro de crédito é que as seguradoras monitoram continuamente cada comprador incluído na apólice e notificam o segurado caso identifiquem deterioração financeira, permitindo que ele tenha tempo hábil para avaliar a necessidade de ajustar o volume de vendas para aquele cliente”, reforça o superintendente de seguros de crédito e risco político da Marsh Risk, Bruno Conforto.
A contratação do seguro de crédito envolve uma avaliação, pela seguradora, da carteira de recebíveis do cliente. Nesse processo, são analisados os compradores separadamente, de maneira que a seguradora possa chegar ao nível de risco que tem condições de cobrir para a empresa que está buscando proteção. Como é um trabalho caso a caso, não há uma precificação única para o seguro de crédito. Os prêmios e limites de contratação são calculados de forma dinâmica, para refletirem o risco de não pagamento dos recebíveis do segurado ao longo do tempo. Assim, o seguro de crédito pode ser contratado a qualquer tempo e para fatias diversas da carteira de recebíveis. “O seguro de crédito não é um produto de prateleira. Ele tem mais uma natureza de parceria entre a seguradora e o segurado”, ressalta Mendonça.
“O custo da apólice é determinado por diversos fatores, como o volume segurável, o setor de atividade do contratante, a qualidade e concentração do risco de crédito do portfólio de compradores assegurados, estrutura de franquias, entre outros. As taxas podem variar de 0,02% a mais de 1% ao ano sobre o volume de vendas do segurado”, diz Mendonça. “Ainda assim, o valor do prêmio é uma fração muito pequena para transferir o risco de crédito para a seguradora, melhorando a proteção do balanço patrimonial e do fluxo de caixa”, afirma Conforto, da Marsh Risk.
Segundo dados da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplemenar e Capitalização (CNseg), o seguro de crédito arrecadou R$ 2,25 bilhões em 2025, com alta de 6,2% na comparação com o ano anterior. Um dos segmentos conquistados pelas coberturas foi o de fundos de recebíveis — os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) —, categoria que já soma patrimônio líquido de quase R$ 730 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Assim como acontece com as indústrias, o desempenho financeiro desses fundos depende muito da qualidade e do pagamento dos recebíveis que têm em carteira. “Por isso o seguro de crédito é um produto muito interessante para os FIDCs, que com ele podem ter coberta parte do risco de crédito das carteiras”, observa José Alexandre Freitas, sócio e diretor-presidente da administradora de fundos Oliveira Trust.
Freitas lembra que outra vantagem do seguro de crédito para os FIDCs é a possibilidade de cobertura de despesas de cobrança. Ou seja, mesmo que não tenha a cobertura para o risco de inadimplência da carteira de recebíveis, o fundo pode contratar uma proteção para os custos relacionados ao processo de cobrança — que em algumas situações pode superar o inicialmente estimado, com prejuízo aos investidores.
Fuente: Valor
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