O mercado segurador tem espaço de sobra para crescer entre as pequenas e médias empresas (PMEs). Uma pesquisa da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg) indica que apenas 26,7% dos pequenos empreendedores consideram a contratação de seguros ao criar um novo negócio — na fase de planejamento, a maioria prefere convocar um contador (65%) ou realizar análises de custos (64%).
Entre as companhias que compram seguros no primeiro ano de operação, as coberturas ligadas a transporte são as mais procuradas (65%), seguidas por previdência empresarial (61,5%), automóvel (58,1%) e riscos financeiros (55%). O estudo ouviu 86 micros e pequenos empreendedores, além de 156 corretores.
“Infelizmente, as PMEs ainda consideram o seguro como um gasto, não como um investimento para proteger o patrimônio”, analisa Carlos Luporini, vice-coordenador da pós-graduação em gestão estratégica de seguros e previdência da FIA Business Schoool. “É um mercado muito promissor, que precisa ser trabalhado pelas seguradoras.”
É o que está fazendo a Bradesco Saúde, que identifica um avanço nas contratações nessa faixa de consumo. A seguradora considera como PMEs os negócios que reúnem de três a 199 vidas. “O segmento representa 25% da base de beneficiários”, diz Flávio Bitter, diretor da Bradesco Saúde. “Tivemos uma expansão de 4,7% nesse bloco em 2025, índice superior ao crescimento da base total da seguradora, de 3,4%.”
Bitter, que atua há mais de 25 anos no mercado de seguros, acredita que a adesão das PMEs a uma cultura de gestão de riscos é um processo em evolução. “Os empresários estão cada vez mais conscientes da importância do tema não apenas do ponto de vista financeiro, mas também da sustentabilidade dos negócios no longo prazo”, analisa.
Uma das estratégias da Bradesco Saúde é atender os empreendedores com uma abordagem “geográfica”. “O plano de saúde com um olhar ‘regional’ chega com um diferencial, pois muitas das PMEs estão concentradas apenas em um Estado ou cidade”, explica. “Assim, conseguimos estruturar opções com hospitais e clínicas desejados pela população local, com valores mais competitivos do que os praticados por similares de alcance nacional.”
Um dos atrativos é o Efetivo Plus, com coberturas ambulatorial e hospitalar, com obstetrícia, e serviços como telemedicina e acesso a psicólogos. Foi lançado em 2025 em São Paulo, Rio Grande do Sul e Distrito Federal. “Já temos lançamento programado no Paraná”, adianta Bitter. Em São Paulo, a rede credenciada inclui parceiros como o Instituto do Coração (Incor), o Hospital da Criança e a Maternidade Santa Joana.
Na Mapfre, que opera no segmento de seguros empresariais no Brasil há três décadas e com soluções para PMEs nos últimos dez anos, uma das frentes de atuação é a opção empresarial. “A solução combina proteção patrimonial, responsabilidade civil e serviços que apoiam a continuidade dos negócios”, explica Andréa Nogueira Soares, diretora de seguros massificados e consórcios da Mapfre.
A executiva diz que as PMEs que mais recorrem às blindagens se concentram nos nichos de serviços e comércio, com 51% das apólices cobrindo atividades como escritórios, lojas e restaurantes, além de consultórios, clínicas e academias.
“São negócios com forte exposição a riscos operacionais, patrimoniais e de responsabilidade civil, especialmente por envolverem atendimento ao público, o que aumenta a necessidade de proteção”, explica. Em relação às coberturas, os limites contratados variam, em média, de R$ 100 mil a R$ 3 milhões, ajustados de acordo com porte, atividade e perfil de risco do empreendimento. “Essa flexibilidade é importante para ampliar a adesão ao seguro no segmento.”
Soares acredita que as vendas devem seguir tracionadas pela evolução das coberturas – o seguro empresarial conta com mais de 30 opções — e pelo avanço regulatório, com destaque para a Lei nº 15.040/2024. “Ela reforçou a confiança das empresas nas contratações de seguros”, afirma. O novo marco legal do seguro entrou em vigor em 2025 e determina que coberturas, exclusões e riscos sejam apresentados de forma clara ao cliente, sem ambiguidades. Em situações de divergência, prevalece o entendimento favorável ao segurado ou beneficiário.
“O aumento da frequência e da severidade dos eventos climáticos também tem elevado a percepção de risco dos empresários, o que impulsiona a busca por soluções mais robustas de proteção”, acrescenta Soares. “Em 2026, a expectativa é de um crescimento de 7,4% no segmento de seguros de danos, com destaque para os ramos patrimonial e empresarial.”
Um dos principais incrementos nas apólices da Mapfre foi a inclusão de uma cláusula de “valor de novo”, que permite a reposição integral de bens sem aplicação de depreciação. “A novidade passa a valer para atividades de comércio e serviços, nas coberturas de incêndio, raio e explosão, além de eventos como dano elétrico, roubo, furto, vendaval e granizo”, detalha. “A indenização passa a considerar o custo atual de reposição de um bem equivalente, reduzindo perdas financeiras decorrentes da desvalorização dos ativos.”
Apesar dos avanços, a executiva identifica desafios pela frente. “Dados do mercado mostram que o seguro de vida ainda é pouco presente nas PMEs”, pondera. Menos de um quarto das empresas, ou 20,9%, oferece algum tipo de proteção aos colaboradores, como o seguro de vida em grupo, observa Soares, baseada em pesquisa da CNseg.
“Ou seja, quase 80% dos pequenos negócios não garantem seguro aos funcionários, apesar de empregarem a maior parte da mão de obra formal do país”, anota Soares. De acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o setor foi responsável por 80% das vagas de emprego criadas no Brasil em 2025.
“Esse cenário mostra que há um grande espaço de desenvolvimento para o seguro de vida, especialmente quando as soluções estão alinhadas à realidade de cada empreendedor”, afirma Soares.
Fabio Lessa, diretor comercial da Capemisa, seguradora que atende PMEs desde 2016, relata que a decisão de contratação nessa área é influenciada pela proximidade com o corretor. “A agilidade também pesa [na compra]”, diz. “A pequena empresa não quer um processo complicado. Deseja resolver uma necessidade real de forma rápida.”
Uma das apostas da companhia é o seguro de vida para empresas de dois a 500 empregados, que tem conquistado seguidores nos últimos anos. Da carteira de apólices coletivas da marca, 42% já pertencem às PMEs. “O crescimento do faturamento no segmento foi de 87% nos últimos cincos anos”, compara. “Em 2016, o setor representava menos de 4% do total de negócios da companhia. No ano passado, fechou com uma representatividade de 20%.” Em 2025, 83% dos negócios que adquiriram produtos da “prateleira PME” tinham de dois a 15 empregados.
“Vendemos o seguro PME por intermédio do corretor, que é, na maioria das vezes, o profissional de confiança do empresário que compra seguros pessoais”, diz Lessa. “Essa relação faz diferença quando o tema passa a ser a proteção da empresa.” Nos últimos quatro anos, o número de corretores que lidam com PMEs na Capemisa cresceu 25%.
Fuente: Valor
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